‘Jornalistas continuarão sendo necessários na revolução digital’
Por Jan
Martínez Ahrens em 16/12/2014 na edição 829
Reproduzido
do El País, 9/12/2014; intertítulo do OI
Uma mudança de civilização está em pleno curso. E no olho do
furacão se encontram os meios de comunicação, cuja sobrevivência dependerá de sua capacidade de
adaptação. Nesse ambiente vertiginoso, tudo está aberto, mas o jornalismo e
os jornalistas continuarão tendo seu lugar. Essa foi uma das conclusões do 3º
Fórum da Comunicação realizado em Veracruz, no México, coincidindo com o início
da 24ª Cúpula Ibero-Americana. Compareceram à jornada de intensos debates
o primeiro-ministro da Espanha, Mariano
Rajoy, e o presidente do México, Enrique Peña Nieto, assim como dirigentes dos
principais grupos de comunicação da América Latina e da Espanha.
Em sua intervenção, Rajoy
destacou o momento de incertezas que o mundo atravessa por causa da revolução
digital. “Os governantes, os cidadãos e as estruturas econômicas precisam se
adaptar. Sem dúvida, a modernidade é o destino das comunicações, mas ela não
deixa de carregar riscos”, declarou, em um breve discurso no qual defendeu seu
programa de reformas na Espanha. Peña Nieto se expressou em um sentido
parecido. Para ele, os Estados devem evitar as ingerências arbitrárias e
garantir que o universo da comunicação tenha “cobertura universal, pluralidade
e livre acesso”.
Na parte mais profissional do Fórum foi destaque a mesa-redonda da
qual participaram o presidente do Grupo PRISA (que publica o EL PAÍS), Juan Luis Cebrián, o presidente do grupo argentino
Clarín, Jorge Carlos Rendo, e o da espanhola Unidad Editorial, Antonio
Fernández-Galiano. Cebrián, primeiro diretor do EL PAÍS, deu início ao debate
ressaltando a dificuldade dos veículos de sobreviver em um universo cada vez
menos intermediado, onde, graças ao impulso das redes sociais e à popularização da internet, as
plataformas tradicionais já não alistam a opinião pública. “Temos que nos
transformar, mas não há dúvidas de que os jornalistas continuarão existindo no
futuro, pois as pessoas precisam de informação rigorosa e confiável”, disse
Cebrián.
O presidente da Unidad Editorial
também apostou na permanência do jornalismo e dos jornalistas, e enfatizou a
necessidade de se investir em talento e se adaptar a novos hábitos de leitura. No
diálogo, ele defendeu o papel histórico dos jornais como parte do
“aperfeiçoamento do sistema democrático”.
Em relação à questão de modelos,
o presidente do Grupo Clarín levantou o problema da sobrevivência de seu
principal veículo diante da hostilidade do Governo argentino. “Há uma agressão
constante àqueles que não são partidários deles. O governo foi o primeiro a se
dar conta da importância das redes sociais. Seu objetivo é chegar à população
sem intermediários, para impor suas mensagens. Ele tem toda uma máquina
preparada para isso”, afirmou Rendo.
Impacto multiplicado
Nos painéis, organizados pela Televisa e pela Secretaria de
Comunicações espanhola, também foi debatido o modelo de negócios do setor. O
vice-presidente da Telefónica, Julio Linares, alertou que não são os mais
fortes que sobreviverão à revolução digital, mas sim os mais adaptados. “É
preciso investir na rede. O mundo já é digital e a revolução já começou. O
consumidor tem mais poder do que nunca, está sempre conectado. Mas é preciso
ver se, nessa cadeia de valor, é possível obter lucros em função do esforço
realizado. É preciso um mínimo de equilíbrio e uma certa sintonia entre
investimentos e rendimentos. Do contrário, gera-se uma indústria vulnerável e
se produzirá um abismo. E isso é um perigo”, advertiu Linares.
Em meio à enorme perturbação
enfrentada pelos meios tradicionais, o presidente da norte-americana Univisión,
Randy Falco, vislumbrou uma oportunidade. A audiência se tornou mais jovem e o
espanhol, graças à difusão digital, está multiplicando seu impacto. “Um em cada
seis norte-americanos são hispânicos, e no futuro teremos um em cada três. Isso
é uma oportunidade”, disse ele.
Jan Martínez Ahrens, do El País, em Veracruz (México)
Edinei Sena
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